Testemunho Impressionante de Mariana Machado

Mariana Machado
Consultora Informática

Mariana Machado, 28 anos, Consultora Informática e criadora de um Podcast “Em Diálogo”, com uma paralisia cerebral.
Sempre ultrapassando os seus obstáculos com força e determinação, tendo tido algumas aventuras no exterior.

O meu nome é Mariana Machado e tenho 28 anos. Sou consultora informática, tenho um podcast chamado “Em Diálogo” e sou apaixonada pela área social.

Nasci prematura e, a algures entre o meu nascimento e a minha estadia numa incubadora (ninguém sabe bem precisar), tive falta de oxigénio no cérebro, o que me provocou uma paralisia cerebral espástica.

 

Quando era criança, não fazia ideia do que esta condição significava, mas percebi logo que não devia ser nada de bom. Estava sempre a cair no chão, coxeava, as outras crianças afastavam-se. Em relação aos adultos, esses olhavam muito para mim – uns chamavam-me “especial”, outros eram mais concretos e usavam a palavra “deficiente”.

Lembro-me que a professora primária, ao início, não acreditava que eu teria as mesmas capacidades cognitivas que o resto dos meus colegas. Também tenho a memória que houve uma mãe de uma criança (que por acaso até é médica!) que disse à minha mãe que não queria que a filha ficasse na mesma turma do que eu. Era claro que não era igual aos outros.

 

 Mais tarde veio o bullying e fiquei a saber que, aos olhos de alguns, era uma “anormal”. Foi por volta dessa altura que comecei a sentir-me mais deprimida e a desenvolver comportamentos de autoagressão.

 

Os meus pais nunca me trataram de uma forma condescendente e sempre exigiram muito de mim. Eu também exigia muito de mim, sentia que, de alguma forma, tinha que “compensar” o facto de ter uma deficiência e de ter comportamentos fora do normal.

 

Depois de vários anos de fisioterapia, fiquei autónoma. Completei a escolaridade obrigatória e fiz a minha licenciatura em Línguas e Relações Empresariais, na Universidade de Aveiro. Ganhei uma bolsa de estudo para fazer um curso de verão na China, e, no ano seguinte, tive a oportunidade de passar um ano em França, como estudante Erasmus.

 

Logo depois, motivada pelo meu gosto pela área social, mudei-me para o Reino Unido, onde frequentei uma formação de Instrutora de Desenvolvimento, tendo em vista integrar um projeto de ajuda ao desenvolvimento numa área rural da Zâmbia, onde estive seis meses.

 

De volta a Portugal, retomei os estudos, ingressando no mestrado em Gestão de Empresas na ISCTE Business School. Após o primeiro ano curricular, comecei a trabalhar na área dos sistemas de informação. Passei pela indústria dos serviços financeiros e, desde há cerca de três anos, sou consultora na área do software.

 

Ao ler o meu percurso académico, pode dar a sensação que este foi sempre linear. Mas a verdade é que, como todos os percursos, o meu também não foi linear. É certo que sou privilegiada – tive acesso a cuidados de saúde, educação de qualidade, emprego e oportunidade de conhecer realidades muito diferentes. No entanto, vivi muitos anos sem conseguir lidar com a minha deficiência ou com as minhas condições de saúde mental. Vivi muitos anos a tentar ser “uma pessoa normal” em vez de ser quem sou. Deixei de fazer algumas coisas (como o desporto) por ter vergonha do meu corpo. Houve dias em que pensei que era melhor morrer.

 

 Após um esgotamento em 2020, fui formalmente diagnosticada com depressão atípica e transtorno obsessivo-compulsivo.

 

No início de 2021, achei que era hora de mudar. Comecei um o Em Diálogo, um podcast criado para dar visibilidade a temas relevantes para a sociedade, principalmente ligados à inclusão social. Comecei a falar com outras pessoas com deficiência. Inscrevi-me Especialização Avançada em Serviço Social, uma área que gosto muito. Ao mesmo tempo, comecei a fazer voluntariado na área dos migrantes com a Associação Lisbon Project. Finalmente, fui selecionada para frequentar a Formação de Formadores da Academia de Líderes Ubuntu, que parte da premissa “eu sou porque tu és”.

 

Não sou perfeita, como nenhum outro ser humano. O facto de ter percebido que sou imperfeita tem ajudado muito na aceitação de quem eu sou, assim como na definição dos meus objetivos de vida.

 

Hoje em dia, já não me esforço para ser “uma pessoa normal” ou para “compensar a minha deficiência”. Eu não sou inferior por ter uma deficiência, nem mesmo por ter condições de saúde mental. Sou uma cidadã trabalhadora e ativa que tem a sua individualidade. Tenho o direito de ser tratada com respeito e dignidade, tal como todas as pessoas.

 

Além do mais, não me considero “normal” por duas razões fundamentais. Primeiro, o conceito de normal é muito subjetivo. Segundo, porque nem toda a gente tem acesso aos recursos que eu tive.  Ainda há um longo caminho a fazer pelos direitos das pessoas com deficiência e direitos das pessoas com condições de saúde mental. Por isso, é necessário continuar a lutar para que a sociedade se torne cada vez mais equitativa.

Mariana Machado

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